Assistir os vídeos que registram o momento que Maricarmen, uma mulher de 87 anos, foi retirada da sua casa pela polícia madrilenha remeteu-me às atrocidades das reintegrações de posse no Brasil.
Quando a vida deixa de importar,
quando o bem é patrimonial.
Assistir ao vídeo que mostra o depoimento de Maricarmen sendo retirada da própria casa me comoveu imensamente.
Tragédia anunciada, que extrapola todos os limites da moralidade, permitindo desalojar uma idosa da casa onde viveu durante sete décadas, onde passou a juventude e envelheceu.
Um oportunismo capitalista que visa meramente o lucro, validado pelas leis locais.
Maricarmen não está sozinha, mas está sozinha
O despejo da idosa também comoveu parte da população, principalmente os jovens, que foram protestar e prestar apoio a Maricarmen, na frente da antiga casa e nas ruas.
Uma escritora se propôs a pagar parte do aluguel para a idosa, que foi acolhida por parentes, pelo menos temporariamente.
O presidente da Espanha manifestou pesar, justificando tratar-se de outra esfera de poder, mas que também sentia muito.
Maricarmen é conhecida da população, uma mulher que virou símbolo de resistência, mas que, apesar da luta legal, sucumbiu à burocracia e ao lucro desmedido.
Os empreendimentos imobiliários, que crescem de forma geométrica em todo o mundo, com condomínios verticalizados cada vez mais altos, devastam a história arquitetônica das cidades, levantam muros cada dia mais altos e descartam vidas humanas.
Curiosamente, um fenômeno pós pandêmico que garante metros quadrados demais para poucos em detrimento da maioria da sociedade.
Maricarmen pagava aluguel, mas este foi sendo majorado de tal maneira que tornou-se impraticável. Isso, porque ela vivia numa região de Madrid considerada nobre, ou que tornou-se uma região de "privilegiados" pela especulação, aumentando o drama do defict imobiliário.
Moradia digna é um direito humano, mas para quem, mesmo?
Na Europa, no Brasil, em todo o mundo, os idosos são as primeiras vítimas:
muitos são enganados por parentes,
muitos são descartados pelo Estado.
Suas casas são tomadas, ou por familiares ou pelo poder público ou pelas incorporadoras ou por aqueles que podem mais, econômica ou politicamente.
Afinal, o custo da vida humana não é medido pela sua importância, o seu valor não acompanha o mercado.
Viver dignamente na aposentadoria, ou benefícios sociais, devido à perda de poder aquisitivo, perda de emprego ou mesmo pela exploração patrimonial é um desafio para incontáveis idosos.
E não são apenas pessoas que viveram em vulnerabilidade, mas que foram levadas pelas regras do capital.
Maricarmen, do leito do hospital, nos convoca à lutar por direitos:
Maricarmen eu sinto muito.


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